Há algum tempo atrás escrevi sobre meu pai.
Era seu aniversário e fiz uma pequena homenagem a ele. Expondo o que sentia (e sinto) por ele.
Agora venho aqui para falar da minha mãe.
Minha mãe não me teve 'da barriga'. Sou filha do coração. Penso que quando eu era bem pequena perguntei pra ela de onde vinham os bebês. E ao contrário de muitas mães 'modernas', ela não me mostrou aquele buraquinho entre os outros dois, por onde saem os bebês que são gerados. Mas ela me apontou o coração, bem no meio do peito. E desde que me conheço por gente sei que saí dali. Sem precisar ao menos de um buraco. Porque sei que o coração dela arrebentou. Mai s do que qualquer pele ou mucosa possa arrebentar para que um filho saia. Arrebentou de alegria. De amor. Porque ela me quis. Talvez mais até do que uma mãe que gera seu filho. Ela me esperou. Ficou grávida... no coração. E não vejo hoje prova maior de amor de mãe uma pessoa que é capaz de amar incondicionalmente um 'filho dos outros', como se fosse seu... como sendo seu. Ela me quis (e me quer).
Ela não fez Pedagogia como eu, mas tinha cada tirada pedagógica que deixaria doutores em educação boquiabertos.
Ela aprendeu a escrever (de novo) comigo. Porque quando ela estudou farmácia era com ph. E todas as outras coisas que mudaram... ela re-aprendeu comigo. Na verdade ela foi muito responsável pela minha habilidade de ler tão precocemente... (grande parênteses aqui: eu aprendi a ler com 5 anos e meio, sem ter ido pra creche, sem ter nenhum contato com a alfabetização antes dos 4 e meio. Mas meus pais sempre liam muito. Estive em contato com as letras desde sempre. E tenho certeza que isso foi imprescindível e fundamental para que eu começasse a ler tão cedo). Um dia, nas férias, comecei a juntar as letras do jornal. E ela me ajudou. E quando voltei das férias de julho eu era a primeira em minha turma a ler. Tenho isso até hoje... o hábito da leitura. E livros, muitos livros pela casa... espalhados.
Escrevi muitos bilhetes e cartinhas. Que ela guardou. Numa caixa especial. Pra lembrar quando a mente quisesse lhe pregar peças e fazê-la esquecer certas coisas. Esse dia não chegou. Ela lembra de tudo...
Ela aprendeu a comer cachorro-quente comigo... quando quebrei o úmero aos seis e meio e só tinha uma banquinha de cachorro quente para saciar a fome. Porque ela não me deixou sozinha nem um minuto sequer.
Ela me ensinou as artimanhas dos homens, ao menos dos primeiros que conhecemos. Que eles não querem mais do que brincadeiras... nós mulheres é que esperamos muito.
Ela me ensinou que se você sai com as próprias pernas tem que voltar com as próprias pernas. Se você faz uma cagada você tem que limpar.
Ela me mostrou que mulher que só fica em casa só fala de panelas e fraldas. E ela ficou assim por muito tempo. Mas um dia cansou do assunto e resolveu trabalhar fora. E ela se bateu pra caramba para aprender a usar o computador, a lidar com 'repartições públicas'. A lidar com clientes e empregados. Ela foi chefe. Mas uma chefe mãe. Sempre tinha colo. A maioria dos chefes não têm.
Ela me fez amar música. Todo tipo... cantada, tocada. Cantamos muito juntas. Tocamos muito juntas. Eu ensinei a ela que destino é você quem escreve... fui a pianista que ela não pôde ser. E a sua voz ainda reverbera aqui dentro. Porque ela tem uma voz linda, macia e deliciosa. Ela me ensinou a cantar pra minha filha. Ela ensina minha filha a cantar.
Ela me fez aprender que ninguém pode comprar sua liberdade... a não ser você mesmo. Desde os doces da mercearia, quando eu tinha 13 anos, passando pelos 'modess' aos 15, e as saídas e roupas aos 18. Só eu poderia comprar isso. E não com o dinheiro dela.
Ela me ensinou que um resfriado não te impede de continuar. Não é motivo para ficar em casa, mesmo que a febre te mate. A vida continua e o mundo gira e não dá pra ficar prostrado. Temos que lutar. Fazer o corpo lutar. Porque ninguém luta pela gente.
Ela me ensinou a ser mãe. Ela fez minha filha nascer. Ela me fez subir uma pequena ladeira quando eu estava com 9 meses, 1 dia e uma tremenda barriga pra carregar. Era pra ajudar a 'encaixar' a bebê. No dia seguinte eu estava parindo. E ela ficou do meu lado durante os próximos 40 dias... nada melhor do que mãe da gente durante a 'dieta'... a dita quarentena. Ela fez muitas garrafas de chá, pra que não faltasse hidratação e que meu leite continuasse a fluir. Ela me serviu muitas sopas. Pra não dar cólicas... ela cozinhou sem carne vermelha e sem feijão, tudo pelo nosso bem-estar. E ela me ensinou muito como 'criar' minha filha. E eu só aprendi a ser filha depois que me tornei mãe. Faz tão pouco tempo... só 5 anos. E ela já é mãe há quase 30. Estou, ao menos, 25 anos atrasada...
Ela é forte, sempre foi. Ela é referência, sempre foi e sempre será.
Ela me ensinou a ser forte. Até demais às vezes.... a Zel fala que não devemos nos envergonhar de ser 'mulherzinha'... minha mãe não foi mulherzinha. Sempre foi "macha". E hoje eu penso que talvez ela tivesse que ter sido um pouco menos macha e um pouco mais mulherzinha. Talvez isso tivesse poupado o corpinho dela.
Hoje, estou escrevendo (e infelizmente acho que devia ter escrito antes) não para comemorar o aniversário da minha mãe. Escrevo porque talvez a culpa me corroa. Talvez porque me sinta responsável. Ela hoje, neste momento, está numa UTI. Há 7 meses perdeu um pulmão para um tumor (e não, ela não fuma). Sexta-feira, última, perdeu um pedacinho do cerebelo, para outro tumor. E junto, esse tumor levou o movimento das pernas dela. Hoje ela está deitadinha, e o buraco (do pulmão extraído) deu espaço para outro tumor. Essa doença terrível está comendo ela por dentro. Atingiu a medula. E eu aqui, com duas pernas ótimas, sem poder me mexer. Não tenho o que fazer. Estou atada. E sem ação. Dependendo de médicos, enfermeiros. E da vontade Dele (sim, eu tenho fé... apesar de toda dificuldade existente em mantê-la nesse momento). Talvez Ele esteja com saudades dela. Pra mim faz tão pouco tempo, mas pra Ele talvez 55 anos seja muito. E creio que Ele sabe o que faz. Apesar de minha razão ( e meu coração) não saberem disso.
Tanta coisa pra fazer ainda... e eu aqui, parada. Se eu pudesse ser como na matrix, tiraria tudo isso de dentro dela com a mão. E se não desse pra ser como matrix talvez eu pudesse trocar de lugar com ela. Ao menos pegar esse tumor pra mim. Assim nós ficaríamos mais um pouco juntas.
Tudo que estou falando pode ser tolice. Pode ser que tudo, no fim, termine bem. Mas eu precisava falar. E aqui, não falei tudo. Só um pedaço. Só um pequeno pedaço.
Te amo mãe. Não sei se estou pronta para ficar sem você. Mas se você quiser realmente ir, eu terei que aprender. E, num exercício de não-egoísmo, te permito ir. Me perdoe pelo que fiz. E também pelo que não fiz. Um dia, seja logo ou mais adiante, vamos nos encontrar novamente.
Saiba que a VIDA que você me deu pelo seu coração vai VIVER no meu coração, para sempre.
Te amo.
Beijos
Fa
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